Drama Barroco

Arquitetura, arte sacra, sincretismo e cultura popular.

Na minha lembrança mais antiga há um quadro do Sagrado Coração de Jesus na sala da casa da minha avó; casa que também abrigava Santa Luzia, São Sebastião e um Preto Velho. Eu não entendia o que era religião, não sabia o que era ter fé, mas essas figuras me instigavam.

Curioso notar que em tudo o Preto Velho destoava dos demais. Não só por ser preto, mas por estar ali sentado tranquilamente enquanto São Sebastião agonizava crivado de flechas; Santa Luzia, vendada, segurava os próprios os olhos depositados em um prato e Jesus tinha o coração fora do peito, além das chagas nas mãos.

O Preto Velho, embora velho, ainda estava inteiro e sereno; os outros sofriam por conta das feridas que nunca cicatrizavam. A ideia de redenção nem fazia parte do meu repertório, mas os corpos machucados também guardavam uma espécie de gozo. Barroco, desde então.

Demorei muitos anos para entender que esses personagens são parte da mesma história e é essa história que eu pretendo contar por meio das minhas imagens. Por isso pesquiso, viajo e fotografo. As igrejas erguidas durante o século XVIII conservam a origem das nossas crenças e da nossa identidade cultural. Por onde passo, tento documentar um Brasil popular e erudito, sagrado e profano. Barroco, portanto.

Rusvel Nantes